domingo, 13 de dezembro de 2009

mulheres, dinheiro, iate.

Talvez ele leia. Talvez nem saiba que existe. Talvez meu sentimento seja cru.
Talvez meu peito esteja nu. Capaz de ser passageiro. Capaz de ser verdadeiro.
E nada temos em comum. De todo sentimento resta nenhum. E eu estou acordada,
gastando a noite num texto desconexo. Uma história sonolenta que não dura o tempo que vale.
Quanto me resta pra sentir, é o que move minha existência.
Hoje intensifiquei. Hoje pude ser eu. Você foi o que sempre foi e estamos caminhando em paralelo.
Duas retas que não se cruzam, e nada a matemática tem a ver.
Podem pensar que minto, podem pensar que sofro, podem pensar que simulo.
Nada sei do que há em mim, e como me encanta essa supresa pessoal.
Ah, esse amor fantasia pelo que nada me atrai. Ah, como é duro fugir da arte e do que ela me traz.
E encontrar um alguém tão sagaz, e essa rima foi propositada, planejada, pra fazer piada,

pra dormir em paz.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Hoje Thaís teve um insight. Vivi teve enjôo. Comeu demais. Mas vai ser tia. Enjoada é Fabiana, que está grávida. De Guilherme, ou Sofia. Em Curitiba uma criança cresce. Amada e esperada. No Rio alguma morre porque não havia vaga nas UTI neonataL. Eu gostaria de trabalhar em hospital. Mas a curiosidade não é grande suficiente. Grande é minha bolsa de estágio. Grande é o apreço pelo que faço. Grande é o sorriso de hoje à noite. Estava comendo profiteroles e gargalhando. Aí fiquei enjoada. Fabiana vomitou. Mas Thaís será uma jornalista cultural-designer-consultora de moda-maquiadora-fotógrafa-quase inglesa. E vida que segue. Com ou sem a criança morta num hospital do subúrbio.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

linha de raciocínio

eu não sinto medo da tristeza. eu sinto tristeza porque quero. quando ela chega eu sossego, eu silencio e deixo tomar conta. penso na vida, nas pessoas que chegaram, nas que saíram. eu não tenho medo da solidão. ela me faz companhia quando a tristeza vai embora. eu temo do que a alegria é capaz. ela afugenta os sentimentos. ela toma conta do que somos, ela define o caminho. ela invade. tenho muito medo do que invade. as pessoas invadem. elas falam, elas interferem. elas ferem.

eu tenho medo das pessoas.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

''Pra desaparecer precisa estar quente de verdade.''

Quando eu caminho, olho em volta. Todo tempo da minha vida é gasto da mesma forma: vivendo. Eu não empurro. Eu não murmuro. Eu perturbo minha própria calma, eu sacudo meu corpo, eu estapeio meu rosto, eu acordo sempre. Eu presto atenção nas pessoas. Eu convivo.
Eu tenho raiva do silêncio. Não do silêncio sábio. Tenho raiva do silêncio cômodo. Do que não se compromete. Eu adoro me comprometer. Eu adoro vínculo. Eu amo a depedência. Não a dependência do outro, do indivíduo. Mas a dependência do olhar, do sorriso. Eu dependo do convívio. Eu não me esquivo das pessoas. Eu vivo aberta. Eu não me arrependo. Já me arrependi. De não viver. Bati cabeça na parede por ter sido muito imersa. Acho graça dos internalizados. Sinto pena, às vezes. Eu ando pelo mundo. Eu não me arrasto pela vida. Eu cuspo palavras. Pensadas. É preciso. Descartes.

Sábias palavras em uma caneca.

domingo, 15 de novembro de 2009

Aglutininas da mente

Quando paramos pra prestar atenção
na situação nua
Quando desenvolvemos nossa mente
Pro sentido de não envolver mais,
Quando a gente se anula
É quando a gente desfruta
É quando a gente se intitula
Donos da noção
E aí o pranto faz-se riso
E faz-se o alívio
E o peso vira bagagem
E a dor vira bobagem.

Sou Eu (Álvaro de Campos)


Sou eu, eu mesmo, tal qual resultei de tudo,

Espécie de acessório ou sobressalente próprio,
Arredores irregulares da minha emoção sincera,
Sou eu aqui em mim, sou eu.

Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou.
Quanto quis, quanto não quis, tudo isso me forma.
Quanto amei ou deixei de amar é a mesma saudade em mim.

E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco inconseqüente,
Como de um sonho formado sobre realidades mistas,
De me ter deixado, a mim, num banco de carro elétrico,
Para ser encontrado pelo acaso de quem se lhe ir sentar em cima.

E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco longínqua,
Como de um sonho que se quer lembrar na penumbra a que se acorda,
De haver melhor em mim do que eu.

Sim, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco dolorosa,
Como de um acordar sem sonhos para um dia de muitos credores,
De haver falhado tudo como tropeçar no capacho,
De haver embrulhado tudo como a mala sem as escovas,
De haver substituído qualquer coisa a mim algures na vida.

Baste! É a impressão um tanto ou quanto metafísica,
Como o sol pela última vez sobre a janela da casa a abandonar,
De que mais vale ser criança que querer compreender o mundo —
A impressão de pão com manteiga e brinquedos
De um grande sossego sem Jardins de Prosérpina,
De uma boa-vontade para com a vida encostada de testa à janela,
Num ver chover com som lá fora
E não as lágrimas mortas de custar a engolir.

Baste, sim baste! Sou eu mesmo, o trocado,
O emissário sem carta nem credenciais,
O palhaço sem riso, o bobo com o grande fato de outro,
A quem tinem as campainhas da cabeça
Como chocalhos pequenos de uma servidão em cima.

Sou eu mesmo, a charada sincopada
Que ninguém da roda decifra nos serões de província.

Sou eu mesmo, que remédio! …