terça-feira, 13 de setembro de 2022

aquela última ida ao banheiro antes de dormir.

pensar o tempo todo. expandir, trazer à tona e esperar. dar conta de si, do outro, do pequeno e do maior de todos. listar problemas em papel, mente, no que leio do que escrevem, no ouvido de quem (não) presta (atenção), nas letras imantadas do brinquedo, no espelho embaçado do banho, no vidro do carro sujo do vizinho. importa que se tenha do que sofrer mais do que os próprios sofrimentos - que no apagar das luzes são substituídos na surdina por outros tantos mais ordinários que cabem sob a luz do sol. 

sexta-feira, 9 de setembro de 2022

coração na barriga

[registro do amor que está se estrebuchando no asfalto cheio de medo de não ser socorrido.] todos os dias acordo com a verdade da sua existência e meu coração se acumula em sensações. todas as horas do dia desembocam em emoções para que - até o fim do tempo de qualquer natureza - eu viva de sentimento em sentimento a cada instante. o tempo do nosso encontro em meio à vida - já talvez pela metade - esfrega em mim um mundo imerso em esperança sem esperar absolutamente nada. [registro do amor que está se estrebuchando no asfalto cheio de medo de não ser socorrido.] 

quinta-feira, 25 de agosto de 2022

você dançando, preenchendo a sala.

a vida te aconteceu e eu não te soube. não descobri se seu abraço era apertado ou distante. e não poderei ser a bajuladora-conquistadora-barata que olha nos olhos dizendo que cheiro bom você tem. porque eu te vejo naquela foto de cabelo bem branco bem curto, e ali sinto um perfume de sabonete muito gostoso. do banho pra receber gente em casa. não ficarei sabendo se virá de você a frase 'gostei dela' ou 'vamos vendo não é, meu filho?'. é um sem fim de perguntas. todas tão estranhas de se dizer em voz alta. resta a coragem apenas para uma: que lugar poderei ocupar sobre a tristeza da sua ausência repentina?

sinto saudade do que desejei descobrir de você. sinto falta de nunca ter te escutado falar da monja, de jesus, de religiosidade sem religião. de livros que nunca terei disposição pra ler, mas tudo bem porque você falaria deles com paixão e eu apre(e)nderia suas palavras ditas.

estou sentindo dor legítima. e é a dor da inutilidade. do ego gritando por não poder ser a presença do luto que reconhecem publicamente. o ombro que é todo do meu amor está vazio e não poderá acolhê-lo no momento exato-agudo-sufocante. desconheço sua voz. mas conheço a cada dia o que você entregou de mais gigantesco para a terra. meu muito obrigada por tanto.

quinta-feira, 14 de julho de 2022

24.06.2022

tudo está no seu lugar.

os amores que chegaram, os que partiram.

os que me cercam, o que eu limito.

trabalho todos os dias em nome da ordenação mental. por vezes, me escapa. mas volta. e eu redescubro uma vida bem desenhada, escolhida, amparada.

“a espiritualidade me acompanha”, ela me disse ontem caminhando no sol com o rosto muito branco. e de onde não se espera, vem a lembrança de que não estamos soltos como poeira espanada de um móvel. nem o pó está perdido. somos função todo tempo, ao outro e a nós.

que não faltemos onde somos demandados.

que respeitemos silêncios, alarmes, os choros mal-vindos e a ardência da falta.

a arte desperta tantas dores. 

e as dores acordadas me convidam muito a voltar pro que faltei.

segunda-feira, 20 de junho de 2022

para explicar a dor fora do tempo do hoje: rascunho de 24/12/2021 publicado


E então se passaram os anos e eu permaneço com os nervos abalados. Os outros seguem me entendendo como emocionalmente instável, e as lágrimas que eu considero razoáveis, para o mundo, são transbordantes.

Nos últimos dias mergulhei profundamente em dores simultâneas. Incerteza, solidão, desamparo. Todos ao meu redor num ritmo diferente do meu, convidando a um comportamento que eu não conseguia alcançar. Perguntas, decisões, posturas. Num dia, sou a mulher em crescente expansão, no outro, a mãe que reluta tempo e espaço para si.

Dia após dia surge a certeza de que a vida está se encaminhando para uma escassez que preenche todas as horas. As alegrias dos meus não me dão sentido, as minhas angústias desconsideradas e o quadro que eu pinto tem cores desbotadas demais para o tudo que eu vivo.

domingo, 6 de junho de 2021

Já não é nova a aflição sobre conservar ou reler minha espiritualidade. Muito anos navegando em conceitos que me trouxeram até aqui, com decisões que me orgulho ter tomado. Doutrinada na coerência da fé, fui alimentada em valores inegavelmente belos, mas que me distanciaram da realidade. Todos os dias resta a pergunta sobre os espaços que habitaria não fosse a batalha moral que travaram no meu lugar.

Mas de tanto chegar sem minhas pernas, as perguntas perderam a coragem de ser. E a aprendizagem deu espaço ao silêncio da aceitação. E da separação, fez-se o fim. A oportunidade de ostrar. 

Sozinha e sem pressa, o discurso estudioso perdeu significado e forma, dando vez ao exercício de ser. Não estou cabendo em lugar nenhum; não sei se por expansão ou encolhimento. Se por arrogância ou constrangimento.

Pensar Deus e a individualidade.

Investigar a criação e criar.

Estudar para compreender e experienciar.

Tão ocupados com nossa jornada, os dias tem sido tão histéricos... Consigo sentir a energia contida dentro da minha barriga, falando alto em forma de dor. O meu corpo pede uma serenidade que irá me levar pra onde eu fugi. 

Percebo que quero encerrar, mas a paz orgasmante de quando encerro as palavras não veio. Então por quê? Ou não me permito maldizer a minha trajetória, ou essa reflexão falhou miseravelmente. Ou é a certeza da minha superficialidade, que insiste - em forma de mãe - em dizer que escrevo mal. Ser muito pouco pra ela sempre foi a minha maior aflição.

quinta-feira, 27 de maio de 2021

Não saber onde se quer chegar

Desassossego sempre foi um prazer. Produz bons frutos, minha escrita amarga, um estranhamento de quem lê, tentando localizar quem é essa mulher que ninguém enxergar nos dias. O olhar do outro me contemplando como avessa, como difícil de entender. Esse é o papel que exerço nos espaços, me deliciando com as palavras de incentivo de quem cada dia sabe menos sobre mim. 

Mas a mesma pessoa que incomoda, é que pede desculpar por ser. Rir com todos, chorar com alguns, e não se cansar de buscar permissão pra existir. Um medo de não dar conta da personagem, e admitir ser medíocre. Escrever é tudo que me dá certeza de não ser igual a todos. Tira-me as palavras, e sobra um prato raso que não dá conta de coisa alguma. 

Portanto, estou aqui - colocando força na tarefa de ser diferente. Dando espaço pra sensibilidade que o mundo insiste em enterrar junto com toda dor que está pairando sob nossos narizes. Dando voz para todos os pensamentos que estão presos nos meus dentes, intestinos e pálpebras cansadas de tremer. Nunca querendo tanto entender pra onde ir, mesmo habitando onde sempre procurei. Esvaziada de moralismo, escolhendo meus erros a dedo.

É a primeira vez que me sinto perdida tendo encontrado tanto de mim.