quarta-feira, 24 de maio de 2023

feita apenas para amar, para viver pelo seu amor e pra ser só perdão. foi ecoando a frase da infância até aqui. da sala para o quarto, do quarto para o caderno, pra folha solta na aula de literatura daquela escola cheia de vidro e inaugurações. para o olhar (minha piada) que seduz o menino nem feio nem bonito da mesa de trás. o amor possível. que é também inalcançável de exaustivo. amor do atropelamento, da derrocada do encantamento. amor que é qualquer palavra dita, que sua o corpo, que cantarola caetano no caminho pro trabalho. mas que também não é exatamente alguma coisa. é um apanhado de comportamentos que olhando de perto não sedimentam nada. 

uma hora dessas resolvi inventar que o amor acabou. 

uma conversa, duas, silêncios, cortes, cenas interrompidas, perguntas sem respostas ou respostas fora do tempo. despeje tudo em forma velha e voilà me encontrei sem alma. sem aquela cafonice de palavra coach que começa com P. carregando água na peneira não na vida toda graças ao bom deus que eu quase acreditei não acreditar. 

 a existência do ódio no nosso amor nunca foi um segredo.

sábado, 20 de maio de 2023

erguem-se memórias-desejos do que (nem foi bem assim) aconteceu.
palavras saem de mim a terceiros - que são quase primeiros, que são quase eu  - para contar as minhas invenções.
toda memória é inventada - foi o que ela me disse quando me neguei a trazer as histórias do amor primeiro.
-
está escuro aqui com muitas vozes ao mesmo tempo, e seus discursos de resgate da caverna que escolhi explorar - e digo explorar porque ia escrever entrar, mas me soou vitimado.
eternos instantes nessas últimas horas pra localizar uma fresta saída de onde ainda posso chegar - e digo chegar porque ia escrever pisar, mas me soou tirano.
na minha frente brotam almas velhas segurando minha mão. as vozes estão ficando roucas e escuto que preciso conhecer o futuro pelo presente. 
as vozes alarmam a correnteza que vem invadindo a caverna.
a caverna pertence à ilha.
a tal da ilha que ela me disse com mar revolto no intervalo entre a proxima. 
o mar que eu nado sozinha, ou que nado com uma bóia mais pesada que eu. 
atravessar águas.
ser atravessada.
ser arrastada.
imagem primitiva.
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o amor primeiro
que recuso evocar.

terça-feira, 13 de setembro de 2022

aquela última ida ao banheiro antes de dormir.

pensar o tempo todo. expandir, trazer à tona e esperar. dar conta de si, do outro, do pequeno e do maior de todos. listar problemas em papel, mente, no que leio do que escrevem, no ouvido de quem (não) presta (atenção), nas letras imantadas do brinquedo, no espelho embaçado do banho, no vidro do carro sujo do vizinho. importa que se tenha do que sofrer mais do que os próprios sofrimentos - que no apagar das luzes são substituídos na surdina por outros tantos mais ordinários que cabem sob a luz do sol. 

sexta-feira, 9 de setembro de 2022

coração na barriga

[registro do amor que está se estrebuchando no asfalto cheio de medo de não ser socorrido.] todos os dias acordo com a verdade da sua existência e meu coração se acumula em sensações. todas as horas do dia desembocam em emoções para que - até o fim do tempo de qualquer natureza - eu viva de sentimento em sentimento a cada instante. o tempo do nosso encontro em meio à vida - já talvez pela metade - esfrega em mim um mundo imerso em esperança sem esperar absolutamente nada. [registro do amor que está se estrebuchando no asfalto cheio de medo de não ser socorrido.] 

quinta-feira, 25 de agosto de 2022

você dançando, preenchendo a sala.

a vida te aconteceu e eu não te soube. não descobri se seu abraço era apertado ou distante. e não poderei ser a bajuladora-conquistadora-barata que olha nos olhos dizendo que cheiro bom você tem. porque eu te vejo naquela foto de cabelo bem branco bem curto, e ali sinto um perfume de sabonete muito gostoso. do banho pra receber gente em casa. não ficarei sabendo se virá de você a frase 'gostei dela' ou 'vamos vendo não é, meu filho?'. é um sem fim de perguntas. todas tão estranhas de se dizer em voz alta. resta a coragem apenas para uma: que lugar poderei ocupar sobre a tristeza da sua ausência repentina?

sinto saudade do que desejei descobrir de você. sinto falta de nunca ter te escutado falar da monja, de jesus, de religiosidade sem religião. de livros que nunca terei disposição pra ler, mas tudo bem porque você falaria deles com paixão e eu apre(e)nderia suas palavras ditas.

estou sentindo dor legítima. e é a dor da inutilidade. do ego gritando por não poder ser a presença do luto que reconhecem publicamente. o ombro que é todo do meu amor está vazio e não poderá acolhê-lo no momento exato-agudo-sufocante. desconheço sua voz. mas conheço a cada dia o que você entregou de mais gigantesco para a terra. meu muito obrigada por tanto.

quinta-feira, 14 de julho de 2022

24.06.2022

tudo está no seu lugar.

os amores que chegaram, os que partiram.

os que me cercam, o que eu limito.

trabalho todos os dias em nome da ordenação mental. por vezes, me escapa. mas volta. e eu redescubro uma vida bem desenhada, escolhida, amparada.

“a espiritualidade me acompanha”, ela me disse ontem caminhando no sol com o rosto muito branco. e de onde não se espera, vem a lembrança de que não estamos soltos como poeira espanada de um móvel. nem o pó está perdido. somos função todo tempo, ao outro e a nós.

que não faltemos onde somos demandados.

que respeitemos silêncios, alarmes, os choros mal-vindos e a ardência da falta.

a arte desperta tantas dores. 

e as dores acordadas me convidam muito a voltar pro que faltei.