quinta-feira, 29 de junho de 2017

O amor bate na aorta (C. Drummond de Andrade)

Cantiga de amor sem eira
nem beira,
vira o mundo de cabeça
para baixo,
suspende a saia das mulheres,
tira os óculos dos homens,
o amor, seja como for,
é o amor.

Meu bem, não chores,
hoje tem filme de Carlito.

O amor bate na porta
o amor bate na aorta,
fui abrir e me constipei.
Cardíaco e melancólico,
o amor ronca na horta
entre pés de laranjeira
entre uvas meio verdes
e desejos já maduros.

Entre uvas meio verdes,
meu amor, não te atormentes.
Certos ácidos adoçam
a boca murcha dos velhos
e quando os dentes não mordem
e quando os braços não prendem
o amor faz uma cócega
o amor desenha uma curva
propõe uma geometria.

Amor é bicho instruído.

Olha: o amor pulou o muro
o amor subiu na árvore
em tempo de se estrepar.
Pronto, o amor se estrepou.
Daqui estou vendo o sangue
que corre do corpo andrógino.
Essa ferida, meu bem,
às vezes não sara nunca
às vezes sara amanhã.

Daqui estou vendo o amor
irritado, desapontado,
mas também vejo outras coisas:
vejo beijos que se beijam
ouço mãos que se conversam
e que viajam sem mapa.
Vejo muitas outras coisas
que não ouso compreender...

quarta-feira, 14 de junho de 2017

não sou dada aos barulhos. eles me arrepiam. acaba de passar pelos meus ouvidos um ruído seco, metralhado, de um carro com um homem pequenino que coleta lixo nos arredores de onde estou: no meio do nada, esperando ninguém, ou quem vier. livro aberto há 6 meses como todos os outros. do amor e outros demônios. abri. uma página e um roer do ar nas minhas costas. um ruído novo e temos um arrepio. não pude distinguir se era frio ou uma honesta vontade de explodir o motor que arruinava meu cérebro por segundos.
pequenos espaços e seus barulhos. gargalhadas do que nao posso rir, ou não vi graça alguma. vozes finas senão as minhas, que faço em descontrole ou amorzinho.
acabei de perceber como sou insuportável quando amo em descontrole.
por isso, venho te dizendo. os barulhos me arrepiam. os pacotes, os alaridos. os toque-toques dos passos de quem me vem e eu não vejo. tenho nervos frágeis apesar do largo sorriso. uma moto estoura o cano de descarga neste segundo. só pode ser de sacanagem, escuto claramente a voz dos meus pêlos gritando por toda nuca.
tenho amado essa conversa com o corpo. máquina fiel, performática, e adaptativa. tenho apreciado sensações, observações e o fascínio da voz que ele emite. fala todo os dias, como um deus que ordena, acolhe e assovia. sussurra em diminuto som: "os barulhos me arrepiam".

sábado, 10 de junho de 2017

Canção Excêntrica (Cecília Meireles)

Ando à procura de espaço
para o desenho da vida.
Em números me embaraço
e perco sempre a medida.
Se penso encontrar saída,
em vez de abrir um compasso,
projeto-me num abraço
e gero uma despedida.

Se volto sobre meu passo,
é distância perdida.

Meu coração, coisa de aço,
começa a achar um cansaço
esta procura de espaço
para o desenho da vida.
Já por exausta e descrida
não me animo a um breve traço:
- saudosa do que não faço,
- do que faço, arrependida.



segunda-feira, 5 de junho de 2017

tom e elis



desde o dia em que você se tornou meu (único) leitor, passei a viver sempre na duvida quando do ímpeto de escrever.
se eu escrevo pra você ler, com notas de escondido, com um quê de nosso lugar, ou se escrevo porque é urgente, se quando chego neste ponto é porque as palavras já estão em refluxo dentro de mim.

e se eu escrevo, escolho todas as palavras. não por métrica ou estética - mas por não saber como isso pode ressonar dentro de você. o quanto as minhas alucinações podem ter assustar.

não.
nenhuma intenção egoísta - ou quase dissimulada - de manipular seu pensamento com as minhas coisas ditas não ditas. mas é que se urge a escrita é porque me calo todos os dias em mil coisas pra te dizer.
das dores que venho sentindo,
da consciência que aperta - e do nunca ter falado abertamente dessa culpa.
do quão honesto é o meu sentimento.
e do quanto que eu sofro, e por vezes me arrependo, desse mergulho insano que fiz pra dentro dos teus olhos, dos teus cheiros, e da textura dos seus dedos - te cheirar é como me abrigar do mundo, da chuva que tem sido os dias.
sensações tão doces e sempre tão novas.

toda vez que te encontro é sempre a primeira vez.

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uma história inventada. que acalenta e incomoda. um encantamento sem fim o poder te olhar fixamente, te perceber todos os dias. todos os gestos, sorrisos, tons de voz que variam. perceber você dentro do momento.
sofrer quando está fora dele.

e quando cala a frustração, ou a culpa por sentir tanto por alguém que já pertence a outra história, é uma dor tão honesta, tao doída de ser sentida ocasionalmente, que eu escolhi compartilhar.
porque suaviza.
porque é um sofrer sem esperar, sem pedir.

e faço isso aqui, somente aqui, por ser esse o espaço em que me desnudo.
criado por mim, relembrado por você e desenhado pra nós.

terça-feira, 23 de maio de 2017

estar só é um desembainhar de espada todos os dias. escolher estar só para enfim, ser de verdade. é deixar vir todos os clichês que remetem ao medo do desconhecido, o medo de ser sozinha e a bravura da luta, da travessia, do enfrentar dos dias. estar só é ter a capacidade de deixar o mundo de lado para viver pra dentro. ouvir seus próprios barulhos, seus desejos e acima de tudo, seus silêncios. a beleza da convivência, do compartilhar de tempo e espaço, do expor os dias para a pessoa amada é condição valiosa de vida. mas não essencial. os dias terminam e eu não tenho com quem dividi-los. e se, por ventura, essa frase te soou como derrota, como tadismo, reescrevo intransitiva:
os dias apenas terminam.
e não ter com quem dividi-los é tarefa pra uma mente que se preparou. chegar até onde cheguei, com a lucidez que me presenteei. foi preciso um investimento moral. ir e voltar todos os dias à vida que tive para compreender a vida que eu tenho. e cada vez que me olho no espelho, acrescento uma nova habilidade. sem vaidade, sem egolatria. sinto "apenas" uma grande parceria com meu eu que desabrocha. "tenho em mim todos os sonhos do mundo."


sábado, 6 de maio de 2017

"...quando a gente se sorri, é o mundo que sorri."

quanto tempo falta para que a minha respiração deixe de ofegar nos minutos que antecedem os teus olhos?
quanto tempo ainda tenho para desfrutar do branco dos teus dentes que tanto se mostram quando estou por perto?
quanto ainda me sobra de certeza do quão bem te faço? e quanto me resta do que posso calcular que sou capaz de fazer?
quantas noites silenciosas concluirão meus dias com seu rosto desenhado no breu?
quanta arte ainda irá despertar no meu espírito que por tanto tempo se concretizou em uma vida automática sem criações?
quantos recadinhos de gratidão cafona escreverei e por quanto tempo esse amor irá me encorajar por compartilha-los contigo?
quantos detalhes do teu corpo eu celebro por descobrir sem nunca poder conhecer?
quanto de perfume resta no frasco que se esvazia nas respirações profundas que dou à distância quando te cheiro na sua ausência?
quanta distância sentida irá se apagar no momento em que te encontro, sempre com o calor de uma primeira vez?
quantas lágrimas alegres derramarei sorrindo - com toda verdade que meu coração é capaz de sentir - quando noto a verdade da inteireza da sua presença quando somos dois - no nosso silêncio confortável?
quantas músicas perturbadoramente lindas e descompassadas me lembrarão nossas psicopatias e bobeiras que a ninguém atingem?

quanto tempo me resta desses dias, embebidos numa bruma de um amor que nem sei se amor é, mas que eu desfruto, que me toca com a ponta dos dedos, conduzindo dias, decisões, poesias, que tem um cheiro bom, da coragem de ser, um gosto apurado e sem açúcar do que é abstrato, do que não é coisa alguma, sentido sequer sentimento, mas que tem todo tempo do mundo para existir nos meus dias, sem pressa, sem nome, sem ponto de interrogação para dar o tom desse parágrafo que estamos escrevendo.

(Título: https://www.youtube.com/watch?v=KgByzAEJI24)

quarta-feira, 12 de abril de 2017

o tal do buraco no peito.

quando tomamos a decisão de sermos sozinhos, nós não nos preparamos.
pensamos que sim, mas não.
estamos crus, inéditos, intocáveis.
vem o silêncio, a falta, o novo e o medo, a mais velha de todas as novidades.

os dias oscilam, as pessoas atravessam seu caminho, as emoções se renovam a todo instante, e tudo que desejamos, muitas vezes, é o contrário do que o cenário oferece.
porque somos assim mesmo: ingratos. não inquietos, ou inconformados.
somos ingratos.

porque a vida se pinta e se mostra colorida, apresenta novos cheiros, sabores, olhares, e tudo que suplicamos é um cenário fantasiado, irreal. idealizado.

idealizar traz tanto uma conotação de correto quanto estúpidos somos.
é de uma esperteza infantil, a de se imaginar de tal modo feliz - monocromáticos, regulares, emocionalmente monótonos.

"...Tesão da vida
Doce espera."

e é uma espera com pitada de movimento, porque a vida não acontece da inércia.
a vida na espera é fria, escrota, e cheia de porcarias.
a ação te oferece troca, calor.

te oferece vento no rosto.


(...) e depois das gargalhadas, uma pausa. tentei me localizar nas sensações dessa vida que me impus.
se estou cercada do que desejei, do que conquistei ou do que me impuseram.
se estou vítima ou protagonista, ainda que essas opções nem antagônicas sejam.
se acolhi esse buraco em meu peito sem forçar encaixes descombinados, na simples explicação de protegê-lo, de não [me] expor.

se corro, para onde e porquê.
ou de quem.
onde quero chegar, e como.

(e por falar em gargalhadas, de tanto que as amo quando fazemos juntos, cadenciados, intensos, presentes, eu posso senti-las como um beijo seu. mas hoje eu resolvi te dar um descanso das minhas palavras. por vezes tão pesadas, e tão cheias de um amor que nunca te pergunto se está disposto a receber. um amor goela abaixo. sempre maior do que o que te mostro.)