sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

alta tensão

teus dedos percorreram meu braço
tua voz lambeu-me rosto pescoço nuca
esses olhos sempre úmidos enxergaram meu corpo trêmulo
corações gêmeos irrigaram nossos extremos
e vibrações inéditas alcançaram cantos ermos

tua força extrapolou os toques
imantados numa energia sem nome
desenho sem razão como fuga ao que me emociona

completamente ébria por cheiros que anseio
tenho em mim todos as memórias do que desejo que aconteça
minha pele arrepia-se em encanto e torpor
não me resta ar algum

sobra esse tesão dos dias que se seguem
sobra um silêncio para sonhar
transbordo em instinto a se domar

"...sossegue, o amor
é isso que você está vendo:
hoje beija, amanhã não beija,
depois de amanhã é domingo
e segunda-feira ninguém sabe..."

Tem o relógio
e a vida inteira.
A sensação de estar perdida.
E o encontro dos nossos olhos
que param os meus dias.
Sem cessar
meus olhos se abrem todas as manhãs
e antes de agradecer por isso
vem seu sorriso, e me distrai
vem sua voz
ela toca meu rosto como uma fita

tenho um mim o amor de muito tempo
tenho um mim um calor constante
que me arde a pele no momento exato
que me toca
que me olha
que gargalha

sonho com sensações novas
subo degraus até você a cada dia

Há quem se apaixone por homens
por mulheres
por corpos
por jeitos
eu me apaixono pela idealização

pelo toque sob a roupa
pelas pintas que se escapam da camisa
pelas espinhas que sinalizam seus hábitos
pelas orelhas sempre vermelhas
pelo seu encadeamento de raciocínio
pela sua forma de aprendizagem

conheço suas fases
e não consigo lê-las
com sua imagem diante dos meus olhos.
Meus passos caminham sempre ao encontro
Isso que nem certo está
mas que é uma engrenagem tão harmônica

terça-feira, 17 de outubro de 2017

me deixa respirar em paz

os demônios, as decisões,
os filhos que não vieram
alguns dias para trazer à tona

das piores sensações
de todas as sentidas
o grito que eu trago
é sempre o que me esfacela

tua capacidade de não ouvir
com meu excesso de escuta
dá voz para o que não foi dito
e espaço ao que destrói

tua pequenez de alma que pensa
em crescer
só faz me diminuir
com as tuas palavras abusivas
me estapeando no silêncio

teus dedos me penetram e acusam
seu corpo me aperta e sufoca
meus dias tornaram-se escassos
o que me pertence tornou teu


terça-feira, 15 de agosto de 2017

a bicicleta


o lápis.

o chico
e o tom

silvia - um vento
dia branco
a ostra

café
a pele
pêlos mordidas

cabelo
blusa - vestido

vermelho

a poesia
do(i)s bichos
no sofá.

uma lista
a ordem
tudo no lugar

domingo, 30 de julho de 2017

dia desses conheci um homem.


Francês, direto e poeta. Nunca acreditei que essas virtudes seriam miscíveis. Eu te juro que a poesia é virtude. Paul Valéry. "Seu amor não correspondido por Mme Rovira precipitou uma crise que o levou a renunciar à poesia e a consagrar-se ao culto exclusivo da razão e inteligência."

Morreu junto com a morte da II Guerra em 45, mas sem estragos.

Ele me colocou diante de uma vergonha de pensamento arrogante-contemporâneo. Que ser pensador social antes de Zuckerberg, de Orkut Büyükkökten, me impressiona. É o último grito na lucidez mental espiritual, que não demandou socialização extrema para se dar a certas conclusões da doença das relações. Prova um gole: Há momentos infelizes em que a solidão e o silêncio se tornam meios de liberdade.

***

Carrego uma auto-promessa que é a de escrever sem a máscara poética. E cercada de tantas palavras duras vindas daquele corpo pequeno que me trouxe ao mundo, escolhi hoje. Normalmente eu a chamo de mãe. Mãezinha, linda, fofinha, momõe. Só que hoje... A doçura escapuliu. A poesia saiu correndo. O sol se pudesse, desbrilhava. Mas não pôde. Assim como eu: não posso tirá-la da função como uma peça de encaixar. Se eu pudesse. Só por hoje... Só por hoje? Que mentira. São tantos os dias, os anos, os fatos. Milhares de vezes a maternidade se desencaixa, descombina, perde a mão. Mancha-se. Perco a mãe. 

Não tenho dúvida alguma que ela não calcula nem mede. Ela apenas fala.
Cospe dor em formatos de palavras e segue. Fico com aquele cheiro de desgosto e lide com isso, minha filha.

Por tantas vezes eu sou minha própria mãe.
A gente que se equilibre com estes pratos.
A gente. Nós.
Já faz tanto tempo que sou unidade na experiência de aguentar.
É cliché de filha machucada, sim, mas é que o corte é tão profundo e tão sempre.

Só tive tempo de abrir a porta e me fechar. Despi-me de roupa, lembrança, vitimismo.
Encarei o espelho, literalmente, pra chorar todas as águas. Escoei as mágoas, e escolhi admitir que está difícil.
Quando nos desmascaramos pra nós mesmos, não há decepção. Há encontro.
Som e fúria também é meditar. Basta ser presente.

É preciso ser leve como o pássaro e não como a pluma.


Entendi que a sua frustração é não me ver caminhando a vida que ela desenhou dentro da própria cabeça. Dos seus planos A e B, não pude seguir nenhum.
Estou completamente fora da curva normal da filha da mãe.

Se eu tenho uma curva normal? Tive.
Por sorte desenhei de lápis.
Já apaguei.
Claro que ainda ficou ali, resquícios bem marcados de uma vida que não deu certo. Um vale profundo no papel, soltando ecos de frustração. Vozes que me freiam e me desencorajam.

Quando jogo luz sobre a sombra, vejo tudo.
E me alegro nessa visão, de uma maneira até um pouco assustadora.

O problema do nosso tempo é que o futuro não é o que costumava ser.




domingo, 2 de julho de 2017

mas é longe, mesmo por perto


procure deixar vivo na memória os nãos que ele te disse, mesmo sem dizer nada.
ainda que em meio a tantos sim

mesmo que isso não signifique o não amor.
nem dele, nem teu
há amor nos olhos dele.
no rubor do rosto.
tudo é autêntico, e você pode acreditar no coração que vê
pode acolher o sorriso de segunda
não precisa duvidar do lamento disfarçado de alegria na sexta
pode e deve, inclusive, seguir amando
aquele amor gratuito sem moedas
que você sabe que é raro
mas que se orgulha
e se estrepa - por sentir

amor pode vir naquele formato que não encaixa no buraco do seu peito.

ele pode rir
ele pode nem por mal não fazer
só não pode você esquecer
das não respostas
da comunicação pouco clara
das pequenas vergonhas
das vezes que ele se divertiu com seu mal jeito do onde se sentar
onde você se perguntava se valia mais encostar a perna ou o braço
se valia o olho em linha reta
ou a orelha e barba de perto
de onde o vento vinha trazendo o perfume dele

não se esquece nunca dos silêncios que ele te obrigou encarar
e que te levou pra tantas elucubrações sem respostas

tem areia demais no olho, e está foda de enxergar a vida com clareza
mas não se canse de procurar, enumerar, relembrar
de todas as oportunidades que ele teve te poupar, cuidar. alertar.
se responsabilizar também por esse jogo de palavras não ditas.



quinta-feira, 29 de junho de 2017

O amor bate na aorta (C. Drummond de Andrade)

Cantiga de amor sem eira
nem beira,
vira o mundo de cabeça
para baixo,
suspende a saia das mulheres,
tira os óculos dos homens,
o amor, seja como for,
é o amor.

Meu bem, não chores,
hoje tem filme de Carlito.

O amor bate na porta
o amor bate na aorta,
fui abrir e me constipei.
Cardíaco e melancólico,
o amor ronca na horta
entre pés de laranjeira
entre uvas meio verdes
e desejos já maduros.

Entre uvas meio verdes,
meu amor, não te atormentes.
Certos ácidos adoçam
a boca murcha dos velhos
e quando os dentes não mordem
e quando os braços não prendem
o amor faz uma cócega
o amor desenha uma curva
propõe uma geometria.

Amor é bicho instruído.

Olha: o amor pulou o muro
o amor subiu na árvore
em tempo de se estrepar.
Pronto, o amor se estrepou.
Daqui estou vendo o sangue
que corre do corpo andrógino.
Essa ferida, meu bem,
às vezes não sara nunca
às vezes sara amanhã.

Daqui estou vendo o amor
irritado, desapontado,
mas também vejo outras coisas:
vejo beijos que se beijam
ouço mãos que se conversam
e que viajam sem mapa.
Vejo muitas outras coisas
que não ouso compreender...