terça-feira, 15 de agosto de 2017

a bicicleta


o lápis.

o chico
e o tom

silvia - um vento
dia branco
a ostra

café
a pele
pêlos mordidas

cabelo
blusa - vestido

vermelho

a poesia
do(i)s bichos
no sofá.

uma lista
a ordem
tudo no lugar

domingo, 30 de julho de 2017

dia desses conheci um homem.


Francês, direto e poeta. Nunca acreditei que essas virtudes seriam miscíveis. Eu te juro que a poesia é virtude. Paul Valéry. "Seu amor não correspondido por Mme Rovira precipitou uma crise que o levou a renunciar à poesia e a consagrar-se ao culto exclusivo da razão e inteligência."

Morreu junto com a morte da II Guerra em 45, mas sem estragos.

Ele me colocou diante de uma vergonha de pensamento arrogante-contemporâneo. Que ser pensador social antes de Zuckerberg, de Orkut Büyükkökten, me impressiona. É o último grito na lucidez mental espiritual, que não demandou socialização extrema para se dar a certas conclusões da doença das relações. Prova um gole: Há momentos infelizes em que a solidão e o silêncio se tornam meios de liberdade.

***

Carrego uma auto-promessa que é a de escrever sem a máscara poética. E cercada de tantas palavras duras vindas daquele corpo pequeno que me trouxe ao mundo, escolhi hoje. Normalmente eu a chamo de mãe. Mãezinha, linda, fofinha, momõe. Só que hoje... A doçura escapuliu. A poesia saiu correndo. O sol se pudesse, desbrilhava. Mas não pôde. Assim como eu: não posso tirá-la da função como uma peça de encaixar. Se eu pudesse. Só por hoje... Só por hoje? Que mentira. São tantos os dias, os anos, os fatos. Milhares de vezes a maternidade se desencaixa, descombina, perde a mão. Mancha-se. Perco a mãe. 

Não tenho dúvida alguma que ela não calcula nem mede. Ela apenas fala.
Cospe dor em formatos de palavras e segue. Fico com aquele cheiro de desgosto e lide com isso, minha filha.

Por tantas vezes eu sou minha própria mãe.
A gente que se equilibre com estes pratos.
A gente. Nós.
Já faz tanto tempo que sou unidade na experiência de aguentar.
É cliché de filha machucada, sim, mas é que o corte é tão profundo e tão sempre.

Só tive tempo de abrir a porta e me fechar. Despi-me de roupa, lembrança, vitimismo.
Encarei o espelho, literalmente, pra chorar todas as águas. Escoei as mágoas, e escolhi admitir que está difícil.
Quando nos desmascaramos pra nós mesmos, não há decepção. Há encontro.
Som e fúria também é meditar. Basta ser presente.

É preciso ser leve como o pássaro e não como a pluma.


Entendi que a sua frustração é não me ver caminhando a vida que ela desenhou dentro da própria cabeça. Dos seus planos A e B, não pude seguir nenhum.
Estou completamente fora da curva normal da filha da mãe.

Se eu tenho uma curva normal? Tive.
Por sorte desenhei de lápis.
Já apaguei.
Claro que ainda ficou ali, resquícios bem marcados de uma vida que não deu certo. Um vale profundo no papel, soltando ecos de frustração. Vozes que me freiam e me desencorajam.

Quando jogo luz sobre a sombra, vejo tudo.
E me alegro nessa visão, de uma maneira até um pouco assustadora.

O problema do nosso tempo é que o futuro não é o que costumava ser.




domingo, 2 de julho de 2017

mas é longe, mesmo por perto


procure deixar vivo na memória os nãos que ele te disse, mesmo sem dizer nada.
ainda que em meio a tantos sim

mesmo que isso não signifique o não amor.
nem dele, nem teu
há amor nos olhos dele.
no rubor do rosto.
tudo é autêntico, e você pode acreditar no coração que vê
pode acolher o sorriso de segunda
não precisa duvidar do lamento disfarçado de alegria na sexta
pode e deve, inclusive, seguir amando
aquele amor gratuito sem moedas
que você sabe que é raro
mas que se orgulha
e se estrepa - por sentir

amor pode vir naquele formato que não encaixa no buraco do seu peito.

ele pode rir
ele pode nem por mal não fazer
só não pode você esquecer
das não respostas
da comunicação pouco clara
das pequenas vergonhas
das vezes que ele se divertiu com seu mal jeito do onde se sentar
onde você se perguntava se valia mais encostar a perna ou o braço
se valia o olho em linha reta
ou a orelha e barba de perto
de onde o vento vinha trazendo o perfume dele

não se esquece nunca dos silêncios que ele te obrigou encarar
e que te levou pra tantas elucubrações sem respostas

tem areia demais no olho, e está foda de enxergar a vida com clareza
mas não se canse de procurar, enumerar, relembrar
de todas as oportunidades que ele teve te poupar, cuidar. alertar.
se responsabilizar também por esse jogo de palavras não ditas.



quinta-feira, 29 de junho de 2017

O amor bate na aorta (C. Drummond de Andrade)

Cantiga de amor sem eira
nem beira,
vira o mundo de cabeça
para baixo,
suspende a saia das mulheres,
tira os óculos dos homens,
o amor, seja como for,
é o amor.

Meu bem, não chores,
hoje tem filme de Carlito.

O amor bate na porta
o amor bate na aorta,
fui abrir e me constipei.
Cardíaco e melancólico,
o amor ronca na horta
entre pés de laranjeira
entre uvas meio verdes
e desejos já maduros.

Entre uvas meio verdes,
meu amor, não te atormentes.
Certos ácidos adoçam
a boca murcha dos velhos
e quando os dentes não mordem
e quando os braços não prendem
o amor faz uma cócega
o amor desenha uma curva
propõe uma geometria.

Amor é bicho instruído.

Olha: o amor pulou o muro
o amor subiu na árvore
em tempo de se estrepar.
Pronto, o amor se estrepou.
Daqui estou vendo o sangue
que corre do corpo andrógino.
Essa ferida, meu bem,
às vezes não sara nunca
às vezes sara amanhã.

Daqui estou vendo o amor
irritado, desapontado,
mas também vejo outras coisas:
vejo beijos que se beijam
ouço mãos que se conversam
e que viajam sem mapa.
Vejo muitas outras coisas
que não ouso compreender...

quarta-feira, 14 de junho de 2017

não sou dada aos barulhos. eles me arrepiam. acaba de passar pelos meus ouvidos um ruído seco, metralhado, de um carro com um homem pequenino que coleta lixo nos arredores de onde estou: no meio do nada, esperando ninguém, ou quem vier. livro aberto há 6 meses como todos os outros. do amor e outros demônios. abri. uma página e um roer do ar nas minhas costas. um ruído novo e temos um arrepio. não pude distinguir se era frio ou uma honesta vontade de explodir o motor que arruinava meu cérebro por segundos.
pequenos espaços e seus barulhos. gargalhadas do que nao posso rir, ou não vi graça alguma. vozes finas senão as minhas, que faço em descontrole ou amorzinho.
acabei de perceber como sou insuportável quando amo em descontrole.
por isso, venho te dizendo. os barulhos me arrepiam. os pacotes, os alaridos. os toque-toques dos passos de quem me vem e eu não vejo. tenho nervos frágeis apesar do largo sorriso. uma moto estoura o cano de descarga neste segundo. só pode ser de sacanagem, escuto claramente a voz dos meus pêlos gritando por toda nuca.
tenho amado essa conversa com o corpo. máquina fiel, performática, e adaptativa. tenho apreciado sensações, observações e o fascínio da voz que ele emite. fala todo os dias, como um deus que ordena, acolhe e assovia. sussurra em diminuto som: "os barulhos me arrepiam".

sábado, 10 de junho de 2017

Canção Excêntrica

Ando à procura de espaço
para o desenho da vida.
Em números me embaraço
e perco sempre a medida.
Se penso encontrar saída,
em vez de abrir um compasso,
projeto-me num abraço
e gero uma despedida.

Se volto sobre meu passo,
é distância perdida.

Meu coração, coisa de aço,
começa a achar um cansaço
esta procura de espaço
para o desenho da vida.
Já por exausta e descrida
não me animo a um breve traço:
- saudosa do que não faço,
- do que faço, arrependida.

(Cecília Meireles)
(mas adoraria que fosse eu)

segunda-feira, 5 de junho de 2017

tom e elis



desde o dia em que você se tornou meu (único) leitor, passei a viver sempre na duvida quando do ímpeto de escrever.
se eu escrevo pra você ler, com notas de escondido, com um quê de nosso lugar, ou se escrevo porque é urgente, se quando chego neste ponto é porque as palavras já estão em refluxo dentro de mim.

e se eu escrevo, escolho todas as palavras. não por métrica ou estética - mas por não saber como isso pode ressonar dentro de você. o quanto as minhas alucinações podem ter assustar.

não.
nenhuma intenção egoísta - ou quase dissimulada - de manipular seu pensamento com as minhas coisas ditas não ditas. mas é que se urge a escrita é porque me calo todos os dias em mil coisas pra te dizer.
das dores que venho sentindo,
da consciência que aperta - e do nunca ter falado abertamente dessa culpa.
do quão honesto é o meu sentimento.
e do quanto que eu sofro, e por vezes me arrependo, desse mergulho insano que fiz pra dentro dos teus olhos, dos teus cheiros, e da textura dos seus dedos - te cheirar é como me abrigar do mundo, da chuva que tem sido os dias.
sensações tão doces e sempre tão novas.

toda vez que te encontro é sempre a primeira vez.

---

uma história inventada. que acalenta e incomoda. um encantamento sem fim o poder te olhar fixamente, te perceber todos os dias. todos os gestos, sorrisos, tons de voz que variam. perceber você dentro do momento.
sofrer quando está fora dele.

e quando cala a frustração, ou a culpa por sentir tanto por alguém que já pertence a outra história, é uma dor tão honesta, tao doída de ser sentida ocasionalmente, que eu escolhi compartilhar.
porque suaviza.
porque é um sofrer sem esperar, sem pedir.

e faço isso aqui, somente aqui, por ser esse o espaço em que me desnudo.
criado por mim, relembrado por você e desenhado pra nós.