quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

pensata.

Por que veste essa roupa?
Por que escolhe esta bebida?
Por que este assunto?
Por que experimentou este caminho?
Por que sente medo deste lugar?
Por que acredita nesta proposta?
Por que acredita nesta pessoa?
Por que se encontra nesse momento?
Por que aceitar essa condição?
Por que ouve essa música?
Por que escolhe esse sapato?
Por que senta nesse lugar?
Por que está parado nesse lugar?
Por que se acha merecedor dessa experiência?
Por que silencia?
Por que fala?
Por que conta estas histórias?
Por que compartilha essa mensagem?
Por que pensa?
Por que pensa essa hipótese?
Por que escolhe sofrer?
Por que sorri?
Por que levanta todos os dias?
Por que aponta o dedo para esse defeito?
Por que se culpa?
Por que se desculpa?
Por que se ergue?
Por que não admite?
Por que não se acolhe?
Por que não se permite?
Por que não grita?
Por que não minimiza?
Por que não realiza?
Por que não abandona velhos hábitos?
Por que não torna a seus velhos sonhos?
Por que não sonha?

Rio de Janeiro, 1935.

Ausência

"Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como uma nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos
Mas eu te possuirei mais que ninguém porque poderei partir
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada."

Vinicius de Moraes

domingo, 11 de fevereiro de 2018

Sinto que as relações com o outro ocupam muitos lugares de mim.
A manhã veio silenciosa.
Mas é daquele silêncio que dói fino feito punção, que passa dentro do peito em desconforto. A sensação é de descontrole, mas de algum modo é como se estivesse calculado, previsto, quase monitorado.

A crise, e isso aprendi com minha mãe, sempre vem. Ainda que torrencial, ainda que garoando. Vem quando necessário. Percebe espaço pra acontecer ao ver as mentes intensas nas idéias fixas. É como se soubesse medir a densidade dos pensamentos, e sistematicamente afrouxasse laços que não tinham mais como apertar. Ainda sem maturidade, não aceito as crises em paz.
Desconheço qualquer procedimento que permita contorno, sou completamente sugada e experencio quase compulsoriamente a dor de não ser.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

alta tensão

teus dedos percorreram meu braço
tua voz lambeu-me rosto pescoço nuca
esses olhos sempre úmidos enxergaram meu corpo trêmulo
corações gêmeos irrigaram nossos extremos
e vibrações inéditas alcançaram cantos ermos

tua força extrapolou os toques
imantados numa energia sem nome
desenho sem razão como fuga ao que me emociona

completamente ébria por cheiros que anseio
tenho em mim todos as memórias do que desejo que aconteça
minha pele arrepia-se em encanto e torpor
não me resta ar algum

sobra esse tesão dos dias que se seguem
sobra um silêncio para sonhar
transbordo em instinto a se domar

"...sossegue, o amor
é isso que você está vendo:
hoje beija, amanhã não beija,
depois de amanhã é domingo
e segunda-feira ninguém sabe..."

Tem o relógio
e a vida inteira.
A sensação de estar perdida.
E o encontro dos nossos olhos
que param os meus dias.
Sem cessar
meus olhos se abrem todas as manhãs
e antes de agradecer por isso
vem seu sorriso, e me distrai
vem sua voz
ela toca meu rosto como uma fita

tenho em mim o amor de muito tempo
tenho em mim um calor constante
que me arde a pele no momento exato
que me toca
que me olha
que gargalha

sonho com sensações novas
subo degraus até você a cada dia

Há quem se apaixone por homens
por mulheres
por corpos
por jeitos
eu me apaixono pela idealização

pelo toque sob a roupa
pelas pintas que se escapam da camisa
pelas espinhas que sinalizam seus hábitos
pelas orelhas sempre vermelhas
pelo seu encadeamento de raciocínio
pela sua forma de aprendizagem

conheço suas fases
e não consigo lê-las
com sua imagem diante dos meus olhos.
Meus passos caminham sempre ao encontro
Isso que nem certo está
mas que é uma engrenagem tão harmônica

terça-feira, 17 de outubro de 2017

me deixa respirar em paz

os demônios, as decisões,
os filhos que não vieram
alguns dias para trazer à tona

das piores sensações
de todas as sentidas
o grito que eu trago
é sempre o que me esfacela

tua capacidade de não ouvir
com meu excesso de escuta
dá voz para o que não foi dito
e espaço ao que destrói

tua pequenez de alma que pensa
em crescer
só faz me diminuir
com as tuas palavras abusivas
me estapeando no silêncio

teus dedos me penetram e acusam
seu corpo me aperta e sufoca
meus dias tornaram-se escassos
o que me pertence tornou teu


terça-feira, 15 de agosto de 2017

a bicicleta


o lápis.

o chico
e o tom

silvia - um vento
dia branco
a ostra

café
a pele
pêlos mordidas

cabelo
blusa - vestido

vermelho

a poesia
do(i)s bichos
no sofá.

uma lista
a ordem
tudo no lugar